Res Ipsa  


    Preguiçosa e indiferente, vibrando facilmente o espaço com suas asas, conhecendo seu rumo, a garça sobrevoa a igreja por baixo do céu. Branca e distante, absorta em si mesma, percorre e volta a percorrer o céu, avança e continua. Um lago? Apaguem suas margens! Uma montanha? Ah, perfeito - o sol doura-lhe as margens. Lá ele se põe. Samambaias, ou penas brancas para sempre e sempre. 

      Desejando a verdade, esperando-a, laboriosamente vertendo algumas palavras, para sempre desejando - (um grito ecoa para a esquerda, outro para a direita. Carros arrancam divergentes. Ônibus conglomeram-se em conflito) para sempre desejando - (com doze batidas eminentes, o relógio assegura ser meio-dia; a luz irradia tons dourados; crianças fervilham) - para sempre desejando a verdade. O domo é vermelho; moedas pendem das árvores; a fumaça arrasta-se das chaminés; ladram, berram, gritam "Vende-se ferro!" - e a verdade? 

      Radiando para um ponto, pés de homens e pés de mulheres, negros e incrustados a ouro - (Este tempo nublado - Açúcar? Não, obrigado - a comunidade do futuro) - a chama dardejando e enrubescendo o aposento, exceto as figuras negras com seus olhos brilhantes, enquanto fora um caminhão descarrega, Miss Fulana toma chá à escrivaninha e vidraças conservam casacos de pele. 

      Trêmula, leve-folha, vagueando nos cantos, soprada além das rodas, salpicada de prata, em casa ou fora de casa, colhida, dissipada, desperdiçada em tons distintos, varrida para cima, para baixo, arrancada, arruinada, amontoada - e a verdade? 

      Agora recolhida pela lareira, no quadrado branco de mármore. Das profundezas do marfim ascendem palavras que vertem seu negrume. Caído o livro; na chama, no fumo, em momentâneas centelhas - ou agora viajando, o quadrado de mármore pendente, minaretes abaixo e mares indianos, enquanto o espaço investe azul e estrelas cintilam - verdade? Ou agora, consciente da realidade? 

      Preguiçosa e indiferente, a garça retoma; o céu vela as estrelas; e então as revela.

 

(VIRGINIA WOOLF - tradução de Roberto Schmitt-Prym – fonte: www.bestiario.com.br)

 

 


Escrito por Lú Azevedo às 16h30 [   ] [ envie esta mensagem ]





 

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar


Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.


O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...


Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.


Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

 

(Cecília Meireles)


Escrito por Lú Azevedo às 17h39 [   ] [ envie esta mensagem ]





 

MILAGREIRO


(Djavan e Cássia Eller)


Agora vamos ter os girassóis
Do fim do ano
E o calor vem desumano.
Tudo irá se expandir,
crescer com as águas,
quiçá, amores nos corações.

E um santeiro, milagreiro,
Prevê a dor de terceiros
E diz que a vida
É feita de ilusão.

E um santeiro, milagreiro,
Prevê a dor de terceiros
E diz que a vida
É feita de ilusão.

Aquela que um dia o fez so nhar
Se foi com o outro
No dia em que os dois
Se casariam por amor.
Ele aluou,
Hoje o seu pesar
Sintila nos varais,
Usou as sete vidas
E não foi feliz jamais.
Toda a imensidão
Passou pela vida
E foi cair na solidão.
Mais um santo para esculpir é o que lhe vale
Pra evitar que o rancor suas ervas se espalhe.
 

 


Escrito por Lú Azevedo às 16h14 [   ] [ envie esta mensagem ]



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