Res Ipsa  


Postal ilustrado

foto-252-cais1.jpg
(fotografia de Pedro P.)

Já passei por aqui hoje.
Senti o cheiro dos barcos ao fundo do cenário e fui lá.
Ao azul, que de tão cinzento se torna tão longe.

Um dia encomendaram-me um texto:

- Escreve sobre um cais, sobre as partidas e chegadas - disse a voz macia
- Ainda não parti, ainda não cheguei, disse eu
- Parte comigo, para chegares a ti, disse ele
- Partirei de ti, e só então, chegarei a mim, disse a voz parecida com a minha e que já partira para lá do azul....

Como os barcos não navegam sozinhos, ainda não cumpri a encomenda.
Fica para o dia em que os prédios me devolvam ao cais.

 

*carta escrita por "AtuaLolita" junho/2004 - com meus agradecimentos -


Escrito por Lú Azevedo às 16h32 [   ] [ envie esta mensagem ]





Seu Gustavo 75 anos. É meu avô. Lúcido, independente, o homem mais inteligente que conheço, tão saudável quanto se pode ser aos 75 anos. Ao lado dele, minha avó, com 74. Tão bem quanto.O nome dela é Francisca. A Tiquinha. A Tiquinha é a razão de meu avô chegar tão bem ...Acabo de ligar pra Atibaia dando os parabéns. De um celular, na saída do metrô, em meios a carros, faróis e buzinas. Imagina só! Quando meu avô chegou em São Paulo, lá por volta de 1970, televisão, telefone, computador, eram rescentes loucuras de ficção científica e ele nem sabia o que era isso. Não tinha flúor na água. Nem caneta Bic. Nem trânsito. Aliás, acho que quase ninguém tinha carro! Quando criança, eu tinha a certeza que ele não gostava da gente (meus irmãos e eu), qualquer barulho era motivo para brigar, olhar feio, meu avô não sorria, nunca. Mas eu o adorava, o seguia de longe, observava... Enquanto a vovó me colocava no colo, cantava musicas de princesas e fazia comida gostosa... O tempo passou, vovó ainda faz tudo que gostamos de comer (couve, né vó?), ainda canta a música da princesa que a bisvovy ensinou e nos enche de carinho e o severo Gustavo...sempre trabalhando, crescendo, aprendendo, um dia, nem sei quando, brincou comigo e eu agarrei a “careca branquinha” dele e tasquei-lhe um beijo... neste dia, eu descobri que ter um avô também é muito legal e que a coisa não precisa ser tão formal assim. Todos dizem que somos parecidos; que somos geniosos, vai ver que  fico o testando, vendo até onde vai essa semelhança... mas todos sabem, e nem se metem, briga passageira, logo estamos muito bem. O Vô foi vigilante noturno. Meu coração partia quando, sábado à tarde,  o via saindo com suas marmitas, pães caseiros e garrafa térmica que a vó preparava, ele voltaria apenas na segunda-feira, ligava o rádio, ouvia o Afánasio (não, nisso não somos parecidos!) e ia dormir... depois, quando aposentado, ele e o “irmão” Adão, juntos dariam muito mais de cem anos, mas, acreditem, eram os “engenheiros” da construção da igreja, aí, o Vôvy caiu, se quebrou todo, o frágil Adão, chorou como criança, e o Vovy se estrupiou todo,  Ah, essas crianças! Depois, no sítio,  cuida de sua roça e tudo o mais como um lavrador de 18 anos e quando começa uma coisa, aí meu Deus! não quer parar... E eu assistindo a isso tudo, com olhos curiosos de criança...depois rebeldes de jovem...e agora de admiração de adulto. A vida toda tive-o como padrão de pessoa honrada. Honesta. Corretíssima. Com um coração enorme (e fechado). Ele e sua Francisca, sempre dispostos a ajudar. Aliás, que belas referências tenho, não?  E se eu chegar aos 75 anos? Será que meus netos terão de mim a mesma imagem que tenho de meus avos? Bom, se não acharem que sou uma velhinha chata, já vai estar de bom tamanho...  Pois domingo vai ser a festa do Vô Gustavo. Sou mesmo uma privilegiada.

No meio dos anti-heróis da modernidade, dos modelos de sucesso raso, de falta de caráter, de aproveitadores, tenho pertinho de mim um modelo de gente como talvez não se faça mais.  Bem vindo aos 75 anos, vô. Pra mim, o senhor é eterno.


Escrito por Lú Azevedo às 11h53 [   ] [ envie esta mensagem ]





Sete Cidades
(Legião Urbana.)

Já me acostumei com a tua voz,
Com teu rosto e teu olhar.
Me partiram em dois
E procuro agora o que é minha metade.

Quando não estás aqui
Sinto falta de mim mesmo
E sinto falta do meu corpo junto ao teu.

Meu coração
É tão tosco e tão pobre,
Não sabe ainda os caminhos do mundo.

Quando não estás aqui
Tenho medo de mim mesmo
E sinto falta do teu corpo junto ao meu.

Vem depressa pra mim que eu não sei esperar,
Já fizemos promessas demais
E já me acostumei com a tua voz,
Quando estou contigo estou em paz.

Quando não estás aqui
Meu espírito se perde, voa longe,
Longe, longe.

Pensei em muitas coisas, (a gente)  faz tempo que não se explica... EU TE AMO!

 

Charlie BrownPeppermint Patty

(Mindoin e Pet Pimentinha fazem 2 anos!)

 

*  “todas as cartas de amor são ridículas...”


Escrito por Lú Azevedo às 10h30 [   ] [ envie esta mensagem ]





(Fortaleza - fev/2004)

 

“De tudo ficaram três coisas
A certeza de que estamos sempre começando
A certeza de que precisamos continuar
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar
Mas podemos
Fazer da interrupção um caminho novo
Da queda um passo de dança
Do medo uma escada
Do sonho uma ponte
Da procura um encontro”

* aos amigos da FPA

... seguimos...


Escrito por Lú Azevedo às 10h59 [   ] [ envie esta mensagem ]



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