Res Ipsa  


 

Hans Christian Andersen é considerado o criador da literatura para crianças e jovens no mundo todo, começou a divulgar suas histórias no século 19, ainda não havia teatro, livro ou apresentação musical exclusivamente voltada para o público infantil e juvenil.

Tristeza é o título de um dos contos de Andersen que acabei de ler. O autor dividiu essa história em duas partes. Na primeira, ele fala de uma senhora viúva, dona de um curtume, que andava com um cachorro velho, e desejava vender cotas de seu curtume para um interessado. Aquele animal já estava desdentado e era tratado como uma pessoa da família.

Depois de alguns dias, e já na segunda parte do conto, o cachorro morreu e os netos da senhora prepararam o funeral e o enterro do animal. Até que resolveram chamar outras crianças para visitarem o túmulo do cachorro, cobrando como ingresso um botão de calça. Houve quem ficou com as calças caindo. E houve quem não tinha calças, nem botão para dar, como uma menina esfarrapada, que passava por lá. Foi uma tristeza enorme para ela não poder participar daquela situação. Ela esperou o final da brincadeira, para se sentar e chorar.

O conto mostra que a tristeza dos outros vista de fora parecia ridícula, mas que era uma tristeza como a de qualquer adulto, era um sentimento doído mesmo. Pesquisando Andersen descobrí que na infância, ele chegou a passar necessidades, perambulando sozinho e com fome. E, na idade adulta, permaneceu um homem solitário. Os personagens principais de suas histórias costumam ter a marca do abandono: o patinho feio, o soldadinho de chumbo, a pequena sereia...

No conto Tristeza, percebo que a divisão em duas partes proposta por Andersen no início da história revela sempre dois lados: mundo do adulto e das crianças, mundo dos humanos e dos animais, mundo dos ricos e dos pobres, vida e morte. Quanta coisa dupla! Que embora seja um conto triste, ele nos prende pelo humor, pela leveza das palavras usadas pelo autor. Além disso, para atrair as crianças, ele recorre a uma situação bem próxima do universo infantil: um enterro de um animal, uma brincadeira de se cobrar para a visitação e os sentimentos diferentes frente à morte.

Andersen tem a sensibilidade de traduzir na história os diferentes sentimentos dos personagens e de envolver o leitor também naquele conflito ou situação. E a gente fica com a tristeza de quem não tem um botão, como a menina esfarrapada. Ou fica com a surpresa de quem vê pela primeira vez uma história dessas. Isso encanta, isso é conto de fadas!


Escrito por Lú Azevedo às 10h36 [   ] [ envie esta mensagem ]





Criar um mundo ao qual as pessoas queiram pertencer

*Meu irmão costumava dizer que há dois tipos de verdade: a verdade superficial e a verdade profunda. Na verdade superficial, o oposto é falso. Na verdade profunda, o oposto também é verdadeiro. Beleza e feiúra são verdades profundas. O fato de que há grande beleza e esperança no mundo não significa que ele também não seja feio. E o fato de as pessoas serem capazes de agir de maneira tão terrível não significa que também não sejam capazes de criar milagres.

Estou perdendo a fé no ser humano, estou deixando de acreditar em mim, mas a beleza e a feiúra são verdades profundas...


Escrito por Lú Azevedo às 14h33 [   ] [ envie esta mensagem ]





"...Tenho ouvido muitos discos,
Conversado com pessoas, caminhado meu caminho,
Papo, som dentro da noite...

E não acredite nisso, não, tudo muda e com toda razão.

...Sem dinheiro no banco...
Mas sei que tudo é proibido,
Aliás, eu queria dizer
Que tudo é permitido,
Até beijar você no escuro do cinema
Quando ninguém nos vê

Não me peça que lhe faça uma canção como se deve:
Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve.
Sons, palavras,
São navalhas e eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém.

Mas não se preocupe meu amigo
Com os horrores que eu lhe digo,
Isso é somente uma canção,
A vida, a vida realmente é diferente,
Quer dizer, a vida é muito pior."

(Belchior - “Rapaz Latino Americano”)


Escrito por Lú Azevedo às 10h57 [   ] [ envie esta mensagem ]





JANELAS DA ALMA
(Para assistir e ver as coisas de um jeito diferente).

 

 

Há (mais ou menos) cinco anos atrás, o cineasta João Jardim filosofava sobre a influência que os 7,5 graus de miopia exerciam em sua vida. Retrucava de qual forma a visão difusa influenciara em sua personalidade. Foi a partir dessas interrogações que nasceu o documentário Janelas da Alma.

 

O “doc” é uma miscelânea de depoimentos de quase vinte personalidades falando sobre o olhar. A grande maioria dos entrevistados guarda uma grande deficiência visual, alguns a cegueira total. Ponto para as inteligentes falas de José Saramago, o humor (não menos sábio) de Hermeto Pascoal e o relato  do cineasta alemão Win Wenders. Aliás, para mim, é dele um dos comentários mais interessantes, quando fala que tem nos óculos uma espécie de “moldura” capaz de enquadrar e selecionar as imagens que o mundo apresenta.

 

O documentário, em diversos momentos, trata as deficiências visuais como grandes diferenciais criativos, ou seja, a mazela é transformada em fonte de inspiração. Para Jardim, uma visão desfocada pode ser mais bela que a perfeita, pois é uma oportunidade de ver a realidade de uma outra forma além do óbvio.

 

A grande virada acontece quando aparecem os depoimentos daqueles que perderam totalmente a visão. Discute-se aí o que se vê de olhos fechados. Os espectadores são apresentados a um fotógrafo que, sem poder ver, enxerga o invisível. É a imaginação! Hermeto fala que, em certo momento, gostaria de perder totalmente a visão, para – só assim – ser capaz de enxergar coisas novas. Essa opinião se completa com a de Saramago, quando denuncia o fato de vivermos num mundo de cegos. Uma cegueira generalizada pelos clichês da mídia.

 

Com isso, o título do filme mostra-se nada mais que uma grande armadilha. Diferente da frase inspiradora de Leonardo da Vinci: “os olhos são as janelas da alma e o espelho do mundo”, o documentário passa a mostrar que todos os sentidos são uma ponte de conexão com a imaginação e que, na verdade, o documentário fala das formas de interpretação do mundo a partir de uma percepção holística.

 

 João Jardim (e o co-diretor Walter Carvalho, também míope) consegue essa integração com o público partindo de um filme tecnicamente perfeito. Faz uso de diversas vinhetas de passagem, num exercício de poética e delírio visual. A trilha sonora e o poder narrativo das personagens aguçam a audição. O preto e branco, em alguns momentos, visita a película para quebrar a linguagem estética do discurso. O filme ganha texturas e se faz belo.

 

* e ainda há quem não entenda.



Escrito por Lú Azevedo às 10h34 [   ] [ envie esta mensagem ]





 

“Se eu tô alegre, eu ponho os óculos e vejo tudo bem.

Mas se eu tô triste eu tiro os óculos.

Eu não vejo ninguém “ 

(Hebert Viana - Óculos)


Escrito por Lú Azevedo às 10h31 [   ] [ envie esta mensagem ]






olhos-bebe.gif

 

“Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso

(e, sem dúvida, sobretudo o verso)

é o que pode lançar mundos no mundo...”

Caetano Veloso


Escrito por Lú Azevedo às 10h43 [   ] [ envie esta mensagem ]



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