Res Ipsa  


DOIS RIOS

(Skank)

O céu está no chão
O céu não cai do alto
É o claro, é a escuridão

O céu que toca o chão
E o céu que vai no alto
Dois lados deram as mãos

Como eu fiz também
Só pra poder conhecer
O que a voz da vida vem dizer

O sol é o pé e a mão
O sol é a mãe e o pai
Dissolve a escuridão

O sol se põe se vai
E após se pôr
O sol renasce no Japão

Eu vi também
Só pra poder entender
Na voz a vida ouvi dizer

Que os braços sentem
E os olhos vêem
Que os lábios sejam
Dois rios inteiros
Sem direção

Que os braços sentem
E os olhos vêem
E os lábios beijam
Dois rios inteiros
Sem direção

Que os braços sentem
E os olhos vêem
Que os lábios beijam
Dois rios inteiros
Sem direção

E o meu lugar é esse
Ao lado seu, no corpo inteiro
Dou o meu lugar pois o seu lugar
É o meu amor primeiro
O dia e a noite as quatro estações


Escrito por Lú Azevedo às 10h30 [   ] [ envie esta mensagem ]





"Não entendo.

Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.

Entender é sempre limitado.

Mas não entender pode não ter fronteiras.

Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.

Não entender, do modo como falo, é um dom.

Não entender, mas não como um simples de espírito.

O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.

É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.

Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco.

Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."

 

Clarice Lipector

 

*saudade da aula do (Ninho) Soler!

 

"Não se preocupe em entender, viver ultrapassa todo o entendimento..."

 

 


Escrito por Lú Azevedo às 09h37 [   ] [ envie esta mensagem ]





  "Naquele tempo o amor corria solto! - em meio a toda espécie de movimentos simulados."

Fernando Sabino – “Movimentos Simulados”

Acabei de comprar este livro.  Sabino encontrou os manuscritos este ano, sem querer, no meio de muitas “velharias”, amarrado e com um dizer: CUIDADO! Foi assim que aconteceu também com o “Livro Aberto” e “As Cartas”, e, sem contar que ainda está prevista a publicação de um policial infantil (adoro!) no próximo 12 de outubro - dia das crianças e seu aniversário. Coincidência uma pessoa como ele nascer nesse dia, não? Para mim, depois de ler o “Menino no Espelho”, “Vitórias da Infância” e tantos outros títulos infantis, tenho mais certeza que isso não ocorre por ordem do acaso.

Vejo o genial Fernando Sabino, como um menino que a vida obrigou a crescer. Mas ele continua sendo uma criança que alimenta incansavelmente o seu baú mágico. E que na hora exata puxa, de dentro dele, um novo título.

Ele é, sim, uma eterna criança, que tem sempre a tiracolo um lápis, um papel e seu baú disfarçados numa pessoa de 81 anos, marcada não só pelo tempo, como sua vida como um todo. Ele é não só uma caixinha de surpresas, mas um baú repleto de vida, arte e dedicação. Será que tem mais coisa no Baú?


Escrito por Lú Azevedo às 10h19 [   ] [ envie esta mensagem ]





O habitat da felicidade
(Lula Queiroga/Lucky Luciano)

Felicidade não precisa de culpa
Felicidade é o alívio da dor
Felicidade é higiene mental
Exercício da alma
Só alguém
Que na vida tanto sofreu todo tipo de dor
Sabe dar valor
Aos caprichos da felicidade
Felicidade não precisa de culpa
Felicidade é fome de amor
Felicidade é a temperatura
Da febre que eu sinto
Eu sei que amanhã pode ser tarde
Pra recuperar
O tempo que eu passo sonhando acordado

Com a felicidade

Comprei, há poucos dias, o novo CD da Zélia Duncan: Eu me Transformo em Outras. Título apropriadíssimo, pois Zélia, que costuma cantar músicas que ela mesma escreve, dessa vez empresta sua voz exclusivamente a canções de outrem. Contudo, resultado raro, ela consegue ser extremamente pessoal, convencendo-nos da sua própria transmutação - ou na transmutação das canções, o segredo pode estar em admitir esta possibilidade. De qualquer forma, é ela, reconhecemos aos primeiros acordes. Assim como a negra da ilustração da capa, uma reprodução de uma pintura de Debret, mesmo com o rosto pintado de branco, pensa que é outra, mas somente é o que ela seria com o rosto pintado de branco - a mudança de si mesmo para se obter. Algo bem Quero Ser John Malkovich: no fundo, ninguém quer ser mais ninguém além de si mesmo.

Ainda tem mais: cogito fortemente a possibilidade da Zélia Duncan ser médium, macumbeira, adivinha, vidente, cigana, quiromante ou qualquer coisa que o valha. É impressionante como, a cada novo trabalho que ela lança, faz com que "certas canções que ouço caibam tão dentro de mim, que perguntar carece: como não fui eu quem fiz?", sendo inevitável experimentar o que Milton sentiu ao escrever esta canção um dia. Sem querer parecer pretensiosa, é isso mesmo: acho que ela sabe o que sinto. Está certo, nem delirando dá para admitir esta hipótese. Contudo, o fato é que sinto que as músicas são para mim, e serei eternamente grata a ela por me permitir isto. 


Escrito por Lú Azevedo às 11h53 [   ] [ envie esta mensagem ]





"Quero a vibração do alegre.

Mas quero também a inconseqüência.

Liberdade?

É o meu último refugio, forcei-me à liberdade e agüento-a não como um dom, mas com heroísmo: sou heroicamente livre.

E quero o fluxo.

 

(Clarice Lispector; "Água Viva")

 

*sempre encontro coisas novas em "Água Vida"


Escrito por Lú Azevedo às 15h22 [   ] [ envie esta mensagem ]



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