Res Ipsa  


Frio

          Céu azul, dia claro, o sol bate mas não esquenta. Ou melhor, esquenta quando o vento para. Muito de vez em quando. Esse dia assim anuncia uma noite fria. Fria mesmo. Hoje de manhã estava zero em Campos do Jordão e em São Paulo chegou a 7. Eu acho melhor lidar com frio do que com calor. Para os que vivem na rua eu sei que não é assim. Mas se não estamos descobertos, o frio me parece mais amigável. A intimidade e o aconchego são mais possíveis e desejáveis. As conversas mais baixas e o tempo valorizam ainda mais o calor dos risos e do tesão. Já reparou que as boas emoções esquentam? A raiva também esquenta mas é melhor manifestá-la do que não, desde que não se perca a cabeça ou a educação. Sem educação não dá nem pra descascar uma tangerina. Fiz uma música para o frio, há tempos. O frio inspira a concentração, leitura, reflexão. O calor faz tudo ficar longe e c ansativo. O calor extenua. No frio o chocolate é uma necessidade, ou o vinho. No calor tudo morre mais rápido. Gosto de estar no campo. De ir ao curral bem cedo, quando na fazenda. É mentira, evidente. Eu nunca acordo cedo quando vou a fazendas mas é verdade que eu gosto. gostar eu gosto embora não faça isso nunca. Orvalho é uma coisa que eu gosto. cheiro de terra molhada. Durmo muito em montanhas e fazendas. Em praias acho o dia melhor mas não fico tão à vontade. Fico doido por um ar-condicionado no calor do verão. Gostaria de ter um escafandro com ar condicionado. Embora o calor tenha uma apelo sensual notório. todo mundo fica mais aceso no verão, mais carnal. No inverno é mais intimidade e paixão. coisas que esquentam. O mêdo gela. O ódio gela. A dor gela. Emoções boas esquentam. No frio valorizamos mais as emoções que esquentam. elas ficam mais evidentes, mais contrastantes, mais necesárias. No inverno podemos fazer um verão com alguém, por horas, e só ouvir o silêncio das ondas de amor quebrando de prazer.

Leo Jaime

*Feliz dia (do aniversário) dos namorados.

Coisas de casal
Rita Lee - Roberto de Carvalho

Tive sorte de encontrar você
Que debocha do meu jeito de ser
De repente faz juras de amor
Me esquenta no frio
Me refresca no calor

A gente troca
A gente troca de lugar
A gente brinca
A gente brinca de brigar

Chora de rir, fica de mal
Coisas de casal, coisas de casal



 


Escrito por Lú Azevedo às 17h54 [   ] [ envie esta mensagem ]





Esperança ou o mundo através do olhar de Miss Brill


     A esperança é um bichinho peludo e traiçoeiro. Quando o encontramos, somos tomados por uma felicidade de suco instantâneo. Quase não cabemos em nós mesmos tamanha a vontade de espalhar para os quatro cantos que fazemos parte de um admirável espetáculo em que cada ator, cada fala e cada situação fazem sentido.

     Mas é só pegarmos o bichinho na mão que ele nos morde e lembramos que o suco é artificial, a peça não tem diretor e as falas foram escritas por um dramaturgo de quinta.

*
Srta Brill  - Katherine Mansfield


Escrito por Lú Azevedo às 10h25 [   ] [ envie esta mensagem ]





O ÚLTIMO DISCURSO - de “O Grande Ditador”

            Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.

            Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

            O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos.  A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

            A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá. - continua  -
Escrito por Lú Azevedo às 11h58 [   ] [ envie esta mensagem ]





            Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!

            Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

            É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!

            Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

Charles Chaplin

 

 


Escrito por Lú Azevedo às 11h55 [   ] [ envie esta mensagem ]





Reza a vela

O rappa

A chama da vela de reza
direto com o santo conversa
ele te ajuda
te escuta num canto
coladas no chão
as sombras mexem
pedidos e preces
viram cera quente

a fé no sufoco
da vela abençoada
no dia dormido
o fogo já não existe
eles saíram do abrigo
são quase nada
a molecada corre
ninguém tá triste

se tudo move
se o prédio é santo
se é pobre mais pobre fica
vira bucha de balão
ao som de funk
e apertada a tua avenida

a cera foi tarrada
não se admire
tá no céu
o balão de bucha
não espere o tiro apenas mire

depois da bença
o peito amassado
é hora do cerol
é hora do traçado
quem não cobre
fica no samba atraves sado
sobe balão
no céu rezado

*"Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada." Deusa - Clarice Lispector - O Rappa sempre abençoa

Escrito por Lú Azevedo às 17h31 [   ] [ envie esta mensagem ]





O ATOR

Por mais que as cruentas e inglórias batalhas do cotidiano tornem um homem duro ou cínico o suficiente para ele permanecer indiferente às desgraças ou alegrias coletivas, sempre haverá no seu coração, por minúsculo que seja, um recanto suave onde ele guarda ecos dos sons de algum momento de amor que viveu na sua vida.

Bendito seja quem souber dirigir-se a esse homem que se deixou endurecer, de forma a atingí-lo no pequeno núcleo macio de sua sensibilidade e por aí despertá-lo, tirá-lo da apatia, essa grotesca forma de autodestruição a que por desencanto ou medo se sujeita, e inquietá-lo e comovê-lo para as lutas comuns da libertação.

Os atores têm esse dom. Eles têm o talento de atingir as pessoas nos pontos onde não existem defesas. Os atores, eles, e não os diretores e autores, têm esse dom. Por isso o artista do teatro é o ator.

O público vai ao teatro por causa dos atores. O autor de teatro é bom na medida em que escreve peças que dão margem a grandes interpretações dos atores. Mas o ator tem que se conscientizar de que é um cristo da humanidade e que seu talento é muito mais uma condenação do que uma dádiva. O ator tem que saber que, para ser um ator de verdade, vai ter que fazer mil e uma renúncias, mil e um sacrifícios. É preciso que o ator tenha muita coragem, muita humildade e, sobretudo um transbordamento de amor fraterno para abdicar da própria personalidade em favor da personalidade de sua personagem, com a única finalidade de fazer a sociedade entender que o ser humano não tem instintos e sensibilidade padronizados, como os hipócritas com seus códigos de ética pretendem.

Eu amo os atores nas suas alucinantes variações de humor, nas suas crises de euforia ou depressão. Amo o ator no desespero de sua insegurança, quando ele, como viajante solitário, sem bússola da fé ou da ideologia, é obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente, procurando no seu mais secreto íntimo afinidades com as distorções de caráter que seu personagem tem. E amo muito mais o ator quando, depois de tantos martírios, surge no palco com segurança, emprestando seu corpo, sua voz, sua alma, sua sensibilidade para expor sem nenhuma reserva toda a fragilidade do ser humano reprimido, violentado. Eu amo o ator que se empresta inteiro para expor para a platéia os aleijões da alma humana, com a única finalidade de que seu público se compreenda, se fortaleça e caminhe no rumo de um mundo melhor que tem que ser construído pela harmonia e pelo amor. Eu amo os atores que sabem que a única recompensa que podem ter - não é o dinheiro, não são os aplausos - é a esperança de poder rir todos os risos e chorar todos os prantos. Eu amo os atores que sabem que no palco cada palavra e cada gesto são efêmeros e que nada registra nem documenta sua grandeza. Amo os atores e por eles amo o teatro e sei que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado por qualquer arte que tenha que se valer da técnica mecânica.

Plinio Marcos

* roubei do blog do "nois" que roubou do blog do "100 máscaras". Fiquem a vontade, o mundo é nosso!


Escrito por Lú Azevedo às 11h20 [   ] [ envie esta mensagem ]



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