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O Caso do Vestido
Carlos Drummond de Andrade
* queria essa peça no teatro... eu poderia ser o vestido! Escrito por Lú Azevedo às 09h44 [ ] [ envie esta mensagem ] PROCURA-SE TÂMARAS Bem informados, inteligentes embora de sensibilidade pouco sã, os donos do tempo das palavras falam sem parar e mesmo parados, falam. O desavisado que cruza seu caminho, pára e ouve os que mal engolem saliva e emendam um assunto com um tema que esvoaçou a esquina, e falam. Falam por uma hora seguida se consentido: a educação, não fazer desfeita ou a estranheza... será que esse me pegou pra Cristo ? Afinal, as avós nos ensinaram a saudar, acolher as visitas, receber bem os amigos mas os que falam por falar, falam e não dizem nada. Sabe papo de cabeleireiro? É parecido mas há o álibi para sair quando termina a manicura e logo deixamos a bolha de Afrodite ; restam as tinturas, novelas, as pontas de cabelo varridas e meus ouvidos carentes de serenidade, inflamados pela impune loucura alheia! Confesso: prefiro o cabeleireiro. E eu serei o juiz? Ditarei uma pena aos pirados da fala em nome do sossego, do suposto equilíbrio interno? Busca infinda e cansativa. Não me interessa. Não sou filha da justiça. Zelo é por mim, porque os falantes não se incomodam com forma e conteúdo e o pior, não lhes importa o tempo, nem por um momento, nem pelo outro, nem pelo tema gasto ou saído do forno, porque sua fala produz lubrificante nos recônditos da solidão diária, substância que mantém as engrenagens dos maxilares, a umidade e prontidão da língua. Sem recato, absorvem o tempo do outro para si, perdem a hora do médico falando no telefone, e às vezes, percebem o tempo degolado pela fisionomia esverdeada do interlocutor, confuso em seu astrolábio pessoal, entre a vontade de esganar o falante ou desintegrar-se ou, solução prosaica, encontrar uma aspirina no bolso. Por que não viro as costas e vou embora? Os donos do tempo das palavras falam sem parar e não ouvem o outro. O outro, uma parede viva, um ouvido móvel, uma coisa útil. Útil seria uma terapia. O outro, um audio-poste, é conveniente desde que presente e mudo, o outro não tem opinião nem resfriado porque não conseguiu, entre um suspiro e outro, expressar um parecer. Esboçou sílabas sobre o último filme que viu, mas o falante está no supermercado com informações quentíssimas sobre o aumento do preço da escova de dente e os emails voltaram, as sandálias havaianas tem novo modelo, não deu pra correr ontem, o pagamento chegou atrasado mas saiu. Por que não viro as costas? Não sou responsável por tanta solidão, pelo vácuo afetivo, pelo oco de si mesmo. Os donos do tempo das palavras interrompem ininterruptamente. O dizer do outro não é urgente. Sem ressonância alguma, tentamos o início de uma frase que não verá seu fim; estamos no aborto da comunicação. Ora comunicação! Isso é coisa de mão dupla, é pra quem gosta de dizer e ouvir, de expressar o que pensa e sente, argumenta, enriquece, pergunta. Dúvidas? Não as manifeste diante dos falantes! A resposta começará nos sumérios. Seja o trajeto do ônibus, pesquisa na internet, astrologia ou aplicações bancárias, sua dúvida voltará no tempo, no tempo da cabeça do falante que lhe trará esclarecimentos nunca dantes navegados , histórias sem interesse que, em algum momento, vão tocar uma ponta da questão. O tempo do falante vai até o homem das cavernas para iluminar sua dúvida que finalmente, cabeça entulhada de paralelos descartáveis, será esquecida: o tempo hábil e sadio para ouvir uma resposta terminou. Como seria se um dia, esgotada, zonza, entusiasmo chupado mas, conseguindo cortar o efeito dominó da fala, perguntasse: por que você faz isso? Soaria grego? Talvez se abrisse um flanco para outro nível de conversa. Uma nova chama. Será? Divertido mesmo é quando falante encontra com falante. Um quer comer o outro: se detestam porque o outro fala demais, sentem-se ameaçados pela interminável verborragia alheia, previnem os amigos contra aquele que não respeita o direito à voz. Não se suportam. Quem fala e não diz, não é o dono da palavra, das sílabas, de nenhuma letra nem som do alfabeto de qualquer idioma possível. Eu não permito o desprezo às palavras. Eu não aceito a oportunidade de companhia varrida por avalanches pessoais. Falas avassaladoras transformam encontros em dor de cabeça, esvaziam uma conversa sufocada pela carência insana. Ouvir o outro é um exercício do sair de si. É inadmissível que o tempo seja explorado e infértil, deslocado para um padrão exaurido de sua possibilidade primal de ser: passar. Meu tempo não será aprisionado, pelo estrangulamento do labirinto, dos que perderam o fio de Ariadne . Os supostos donos do tempo das palavras não são senhores de nada senão de sua imensurável e pouco experimentada solidão. Olhar para a solidão é o início da cura. Vivê-la é a chave. Eu amo a possibilidade da palavra, do encontro, da troca. O silêncio é um som dinâmico, parte fundamental da música quanto o vazio na escultura e o branco na pintura. Observação banal mas esquecida. Não viro as costas nem alimento vampiros. Passo e pouso na busca da palavra, de compartilhar horas a viver. É provável encontrar tâmaras doces no deserto. Lelia Maria Romero Escritora e poeta Escrito por Lú Azevedo às 14h50 [ ] [ envie esta mensagem ] "Todos os meus livros são simples tentativas de rodear e devassar um pouquinho o mistério cósmico, esta coisa movente, impossível, perturbante, rebelde a qualquer lógica, que é a chamada “realidade”, que é a gente mesmo, o mundo, a vida. Antes o obscuro que o óbvio, que o frouxo. Toda lógica contém inevitável dose de mistificação. Toda mistificação contém boa dose de inevitável verdade, precisamos também do obscuro". Guimarães Rosa *Tento em vista que minha mãe esbravejou "os livros ou você, não há mais espaço para os dois!"... Escrito por Lú Azevedo às 17h18 [ ] [ envie esta mensagem ] "Qualquer um pode carregar seu fardo, embora pesado, até o anoitecer. Qualquer um pode fazer seu trabalho, embora árduo, por um dia. Qualquer um pode viver mansamente, pacientemente, amistosamente, até que o Sol se ponha. E isso é o que realmente a vida requer". - Stevenson - *me sinto tão presa.Escrito por Lú Azevedo às 11h20 [ ] [ envie esta mensagem ] CHÃO DE GIZ (Zé Ramalho) G D/F# Em *Nil, feliz aniversário!!! Escrito por Lú Azevedo às 10h26 [ ] [ envie esta mensagem ]
Escrito por Lú Azevedo às 10h30 [ ] [ envie esta mensagem ] |
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